Ensaio

Antes da Intenção: o mal que antecede a escolha

Uma criança empurra outra do alto de um escorregador e sai como se nada tivesse acontecido. O que esse gesto revela sobre a condição humana antes da razão, antes da moral, antes da escolha deliberada?

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  • Pecado Original
  • Antropologia Católica
  • Fomes Peccati
  • Inocência e Queda
Gravura sépia em estilo antigo: duas crianças em um escorregador de madeira em um jardim murado, com uma pequena brasa junto às raízes e uma imagem sacra ao fundo

O fato e o desconforto

Ao rolar os reels do instagram me deparei com um video de uma criança empurrando uma outra criança menor da parte de cima de um playground. Após ocorrido a criança que empurrou sai andando como se nada tivesse acontecido. Sem raiva aparente, sem motivo claro, sem remorso visível.

O desconforto que essa cena me provocou não é simples de descrever e minha intenção não é julgar a criança. Sabemos que ela não tem a maldade formada de um adulto, mas ainda assim algo aconteceu que não deveria ter acontecido. Algo que machucou e poderia ter ocasionado um desastre maior. Algo que, se tivéssemos que nomear, chamaríamos de mal.

A pergunta que nasce desse desconforto é o tema deste ensaio:

Como o mal pode ser praticado antes mesmo que haja uma razão, intenção? O que esse gesto revela sobre a condição humana que antecede a razão, a moral e a escolha?


O argumento que não resolve

Eu não parei apenas no vídeo, mas fui ler os comentários. As explicações mais comuns foram questões culturais ou ambientais: a criança aprendeu isso em casa, viu em algum vídeo, foi mal criada pelos pais… Pode até ser verdade em muitos casos. Mas essa explicação tem um limite. Ela pressupõe que a criança nasceu neutra e foi corrompida por algo externo a ela. Uma vez sem influências negativas, o ser humano tenderia naturalmente ao bem. Essa é seria a visão do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, mas isso não explica tudo. Não explica por que a inclinação ao egoísmo e à dominação aparecem mesmo em ambientes envoltos de cuidados, mesmo em crianças pequenas demais para ter sido “corrompidas” por nada. Thomas Hobbes pôs um contraponto na ideia de Rousseau argumentando que sem o controle do Estado a vida humana tenderia à guerra de todos contra todos. Essa visão pressupõe no homem uma capacidade natural para a violência quando não há nada que a contenha.

Ambas as ideias, otimistas e pessimistas a respeito da natureza do homem são extremas. Minha intenção não é me alongar nas ideias desses filósofos mas refletir se existe algo que antecede a cultura, que antecede a educação. Algo que está na condição, não apenas na ocasião.


A brasa que ninguém acendeu

Santo Agostinho já havia observado isso nas Confissões, num trecho que desconcerta pela precisão. Ele descreve um bebê que ainda não fala, que ainda não raciocina, olhando com ciúme para o irmão no seio da mãe. Não há nenhuma ideologia ali, não existe uma maldade consciente. Porém, há uma inclinação, um movimento interior em direção ao querer possuir, ao querer o centro, ao não querer dividir.

Santo Agostinho de modo algum culpou o bebê. Estava apontando que a desordem interior aparece antes de qualquer formação moral e antes da razão pois é anterior à própria escolha. Há algo na condição humana que precede a intenção e já inclina para o egoísmo.

A tradição teológica deu um nome técnico para isso: fomes peccati, a brasa do pecado. Isso não é culpa pessoal ou uma condenação da criança. É o nome de uma inclinação herdada, presente antes do uso da razão e da vontade formada, que torna o ser humano propenso ao desvio mesmo quando ninguém ensinou o desvio.


O que o Sacramento do Batismo faz

O Batismo remove a culpa do pecado original, mas não extingue o fomes peccati. A inclinação permanece, a brasa continua acesa.

Isso não é apenas um detalhe técnico da teologia sacramental, é antropologia. O batizado não se torna imune ao puxão interior em direção ao egoísmo, à dominação e ao querer o centro, mas recebe a Graça para reconhecer esse puxão e para resistir a ele. O Catecismo é claro: as consequências do pecado original para a natureza humana, o intelecto obscurecido, a vontade enfraquecida, a inclinação ao mal, permanecem após o batismo e acompanham o cristão ao longo de toda a sua vida.

Essa é a razão pela qual a formação moral e espiritual não é opcional nem decorativa. A criança batizada não está protegida da inclinação pelo simples fato de ter sido batizada. Está equipada para o combate. E todo combate pressupõe um adversário real, interior, persistente. Negar o fomes peccati por otimismo pastoral não forma cristãos mais livres. Forma cristãos desarmados diante de algo que ninguém lhes explicou que existia.


O mal sem rosto demoníaco e sem desculpa cultural

O que esse gesto da criança no escorregador mostra, no fundo, é que o mal não precisa de um rosto demoníaco para existir. Não precisa de intenção plena, de ideologia, de maldade elaborada. Pode emergir de uma condição que antecede tudo isso.

Isso tem consequências para além da infância, como por exemplo o adulto que faz o mal “sem querer”, o líder que domina “com as melhores intenções”, o funcionário que causa algum dano para um cliente, fornecedor ou concorrente por estar “apenas cumprindo ordens”, todos eles compartilham com a criança no escorregador algo estrutural: uma inclinação que não foi escolhida, mas que também não foi resistida.

A diferença entre a criança e o adulto não está na condição, está na responsabilidade que cresce com a consciência. A criança não sabia o que fazia. O adulto, em algum nível, sabe. E é exatamente esse saber que torna o mal do adulto moral e ontologicamente diferente, mesmo quando a inclinação de origem é a mesma.


A pergunta que fica

Se a inclinação ao mal é estrutural e anterior à escolha o que isso significa para a forma como educamos, lideramos, exercemos autoridade e construímos comunidade?

O pecado original é uma condição presente que aparece toda vez que uma criança empurra outra e sai andando como se nada tivesse acontecido.

E toda vez que um adulto faz o mesmo, e também sai andando.


Referências

  • Agostinho, Confissões — Livro I (o lactente e o ciúme)
  • Catecismo da Igreja Católica §§ 405–409 (consequências do pecado original, fomes peccati)
  • Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755)
  • Thomas Hobbes, Leviatã (1651)